3. BRASIL 15.8.12

1. CHOQUE DE CAPITALISMO
2. QUEM TEM MEDO DO MERCADO?
3. DUELO ENTRE OS CULPADOS... E CEGOS
4. CIFRAS QUE BRILHAM
5. BECA SEM CRISE

1. CHOQUE DE CAPITALISMO
A presidente Dilma Rousseff anuncia nesta semana um pacote para desatar o n Brasil: a privatizao de portos, aeroportos, rodovias e ferrovias. Ela ouviu quem conhece melhor os problemas, empresrios e investidores.
OTVIO CABRAL

     Na prxima quarta-feira, a presidente Dilma Rousseff anunciar um conjunto de decises de governo que, aplicadas  realidade, tero o efeito de um choque de capitalismo no Brasil. Numa escala indita, o governo vai transferir para a iniciativa privada a construo e a administrao de pelo menos cinco portos, 50.000 quilmetros de rodovias, 12.000 quilmetros de ferrovias e cinco aeroportos, incluindo os das principais capitais.  um grande passo na direo certa. Para montar o pacote de induo do crescimento, nome-cdigo do conjunto de seis planos no Palcio do Planalto, o governo fez o que deveria: reuniu alguns dos principais conhecedores dos problemas  pesos-pesados do empresariado brasileiro  e fez a pergunta certa: o que o estado brasileiro pode fazer para deixar de atrapalhar o desenvolvimento do pas e passar a ajud-lo a crescer? Com as respostas em mos, Dilma convocou uma tropa de elite do governo para trabalhar nas solues. Alm do portentoso pacote de privatizaes, o trabalho resultou numa srie de medidas destinadas a reduzir o preo da energia eltrica e desonerar a folha de pagamento das empresas privadas. O plano ser anunciado em etapas, estando a ltima prevista para daqui a quatro semanas.
     O pacote comeou a nascer em 22 de maro deste ano, quando a presidente Dilma Rousseff se reuniu por trs horas no Palcio do Planalto com 28 dos maiores empresrios do Brasil. No incio do encontro, perguntou aos convidados quais eram os problemas que dificultavam os seus negcios. De todos, ouviu reclamaes que convergiam para uma mesma direo: falhas na logstica e na infraestrutura, carga tributria pesada e as consequncias da desvalorizao do dlar diante do real. Para a presidente, ficou consolidada a certeza de que era necessria e urgente uma ao do governo para desatar o n Brasil, como ela passou a dizer. Desde ento, a preparao de um pacote de crescimento se tornou a prioridade de sua agenda. No houve uma semana em que o assunto no tenha sido tema de ao menos duas reunies. Na semana passada, por exemplo, foram cinco encontros, que duraram mais de dez horas.
     Em linhas gerais, o plano de privatizaes prev a mesma frmula para todos os setores envolvidos: s empresas que vencerem os leiles de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos tero de se comprometer com a execuo de obras de qualidade e com uma administrao eficiente (veja os detalhes dos projetos nas pginas seguintes). O governo espera atrair at 60 bilhes de reais em investimentos. O BNDES participar do financiamento dos empreendimentos, mas no como protagonista. Para viabilizar esse modelo, o governo levou em conta a economia feita com a diminuio da dvida interna, decorrente da reduo da taxa de juros. Essa folga de caixa  o que, segundo o governo, possibilitar que ele abra mo de ser remunerado pelas privatizaes. Como parte do contrato com as empresas vencedoras nas licitaes, uma parcela do dinheiro que elas arrecadarem ter de ir para obras de melhorias nos setores administrados. Esse modelo de privatizao no far com que o estado encha seus cofres, mas permitir que ele deixe de administrar projetos deficitrios  e passe a se dedicar ao seu papel, de induzir o crescimento.
     Com essas medidas, Dilma d uma guinada radical no rumo seguido por seu antecessor e padrinho poltico. O governo Luiz Incio Lula da Silva aumentou o tamanho do estado e o salrio do funcionalismo. Dilma segue no sentido oposto  como tambm mostrou sua atuao diante da greve dos servidores pblicos federais (veja reportagem na pg. 64). A autonomia da presidente em relao ao governo anterior ficou clara j na fase de preparao do pacote. De suas conversas sobre o tema, ficaram de fora os petistas mais radicais. Dilma preferiu ouvir auxiliares como Nelson Barbosa, secretrio executivo do Ministrio da Fazenda, e Lus Incio Adams, advogado-geral da Unio. Fora do governo, ela consultou pessoalmente os empresrios Jorge Gerdau, Eike Batista, Andr Esteves, Marcelo Odebrecht e Srgio Andrade.
     Inicialmente, Dilma queria lanar a srie de projetos no comeo de 2013. Mas, assim que soube dos resultados pfios da economia no primeiro trimestre e da perspectiva sombria para os perodos seguintes, resolveu pr o p no acelerador. O ano de 2012 est perdido, agora temos de trabalhar para ganhar 2013 e 2014, afirmou em uma das primeiras reunies de preparao do pacote.
     H ainda alguns pontos a esclarecer durante as prximas quatro semanas, quando os projetos sero lanados aos poucos (se alongar a repercusso de notcias positivas sempre foi um recurso eficiente para os governos, em tempos de julgamento de mensalo ele  obrigatrio). A questo da desonerao da folha de pagamento das empresas privadas  uma das que no encontraram soluo definitiva ainda. A hiptese mais provvel  compensar o gasto das empresas com direitos trabalhistas com mudanas na cobrana do imposto de renda. Neste fim de semana, duas reunies estavam marcadas para que o tema fosse discutido.
     Contrastando com a firmeza das medidas a ser anunciadas est a hesitao do Palcio do Planalto em usar a palavra privatizao, cuidadosamente evitada e substituda pelos termos concesso e parceria. A preocupao reflete uma certeza do governo  a de que o pacote encontrar resistncia inclusive em seu prprio partido, o PT, quando os projetos de lei e as medidas provisrias referentes a ele tiverem de ser votados no Congresso. Espera-se que o governo enfrente com a determinao demonstrada at agora.

RODOVIAS
50.000 KM PARA A INICIATIVA PRIVADA
 Em 1996, o presidente Fernando Henrique Cardoso privatizou a principal rodovia do Brasil, a Dutra, que liga o Rio a So Paulo. O vencedor foi o consrcio que ofereceu a maior remunerao  Unio. E o valor arrecadado foi utilizado para amortizar a dvida pblica. Onze anos depois, o governo Lula concedeu 2600 quilmetros de rodovias federais, entre elas a Ferno Dias, que liga So Paulo a Belo Horizonte. O critrio utilizado foi diferente: ganhou o leilo quem ofereceu a menor tarifa de pedgio ao usurio. Dilma Rousseff considera que os dois modelos tm mais problemas do que mritos. Por isso, lanar um programa mais audacioso: a concesso de 50.000 quilmetros de rodovias federais  iniciativa privada por meio de um sistema misto em que as empresas tero de pagar ao governo para ganhar a concesso. Mas o dinheiro pago, que, estima-se, chegar a 20 bilhes de reais, ser utilizado em obras a ser feitas nas prprias estradas. O valor do pedgio ser levado em conta, mas no vai ser mais o principal critrio para vencer a disputa.  um esquema semelhante ao adotado pelo estado de So Paulo na privatizao de rodovias como a Imigrantes e a Anchieta. Dos 50.000 quilmetros de rodovias a ser privatizados, 5000 ainda tero de ser construdos. Os outros 45.000 j existentes devero ser recuperados e, em alguns casos, duplicados pelas empresas vencedoras. Para a recuperao, os trechos prioritrios so Belo Horizonte-Vitria e Goinia-Palmas. Os casos de duplicao so o da Dutra, na Serra das Araras, e o da BR-101, na Bahia. Empresas estrangeiras podero participar, menos aquelas cujos servios vm sendo considerados insatisfatrios, como a espanhola OHL, administradora da Ferno Dias.

FERROVIAS
PARA ESCOAR MAIS, TRILHOS EM DOBRO
 Uma queixa unnime dos empresrios ouvidos pela presidente Dilma Rousseff foi a dificuldade em escoar a produo, principalmente por causa da falta de uma rede ferroviria eficiente. Na prxima quarta-feira, Dilma anunciar um projeto que tem por meta dobrar a malha ferroviria brasileira em um perodo de seis a oito anos. Hoje, o pas tem apenas 12.000 quilmetros de estradas de ferro em funcionamento  um nmero insignificante perto dos 35.000 quilmetros da Argentina e dos mais de 200.000 dos Estados Unidos. Alm de pequena, a rede  ultrapassada, j que cerca de 40% dela foi construda h mais de sessenta anos. 
     O projeto de ampliao e modernizao  simples. O governo definir os trechos que devem ser construdos ou readequados. Os interessados no precisaro pagar nada  Unio, apenas se comprometer a construir com rapidez e administrar com eficincia o sistema. A expectativa no Palcio do Planalto  que o leilo atraa at 20 bilhes de reais em investimentos. Os principais trechos a ser desenvolvidos so a Ferrovia de Integrao Centro-Oeste, de 1600 quilmetros, que ligar Campinorte, em Gois, a Vilhena, em Rondnia, e o Ferroanel de So Paulo, que ligar Campo Limpo Paulista ao Porto de Santos. Tambm sero reformados trechos importantes, como Rio de Janeiro-Vitria e Belo Horizonte-Salvador.

PORTOS
CONSTRUIR NOVOS E PRIVATIZAR OS VELHOS
 Nos ltimos anos, o Brasil vem batendo sucessivos recordes de safras agrcolas. As importaes tambm crescem anualmente. Mas a falta de portos eficientes  um gargalo que atrasa embarques e desembarques e aumenta o custo Brasil. Para desatar esse n, o governo atuar em trs frentes, que devem render at 10 bilhes de reais em investimentos. A primeira  a construo de novos portos  em Ilhus (BA), Vitria (ES) e Manaus (AM)  no mesmo modelo das ferrovias: as vencedoras das licitaes constroem, administram e nada repassam ao governo. A segunda  a privatizao de dois portos federais, o de Vitria e o de Salvador. H pendncias jurdicas a ser resolvidas, mas a inteno  tambm conceder  iniciativa privada a parte federal de portos mistos, aqueles administrados em conjunto com os estados, como Santos e Paranagu. Por fim, o governo quer permitir que empresas donas de portos privados, como a Vale e a OGX, abram suas instalaes para outras exportadoras em pocas de entressafra. Para isso, reforar a agncia reguladora do setor, que definir tarifas e arbitrar conflitos.

AEROPORTOS
MAIS EXIGNCIA PARA ESPANTAR OS NANICOS
 Na avaliao do governo, as concesses para a administrao dos aeroportos de Braslia, Campinas e Guarulhos, definidas em fevereiro, fracassaram. S empresas de pases perifricos venceram as disputas, o que foi atribudo ao baixo teor de exigncia dos leiles. Na ltima semana de agosto, o governo anunciar a privatizao de trs novos aeroportos: Galeo (RJ), Confins (BH) e um terceiro no Nordeste (Salvador ou Recife), que ser ampliado para virar uma central regional de conexes. Para evitar o erro anterior, definiu-se que se exigir dos interessados experincia na administrao de aeroportos com movimentao superior a 30 milhes de passageiros por ano (antes, o limite era de 5 milhes). J h conversas com operadores de Chicago, Paris, Frankfurt e Bangcoc para que entrem na disputa. Os vencedores faro obras de ampliao e se responsabilizaro pela operao em troca das taxas de administrao e da arrecadao dos estacionamentos. Em uma segunda etapa, o governo deve privatizar Santos Dumont (RJ) e Congonhas (SP). Ao final do processo,  Infraero sobrar apenas a administrao de aeroportos regionais.

ENERGIA
MENOS IMPOSTOS PARA REDUZIR A CONTA
 No pacote do governo, h um item que pode ter impacto direto no bolso do consumidor: o que visa a reduzir o preo da energia. Embora a matriz energtica nacional seja das mais baratas do mundo, as tarifas esto entre as mais caras. Isso porque, de cada 100 reais que o consumidor paga na conta de luz, 45,08 reais so impostos. O plano do governo para resolver o problema se baseia em duas medidas. A principal ser a oferta, para algumas empresas, de antecipao da renovao das concesses de 2015 para 2013. As que aceitarem evitaro o risco de enfrentar concorrentes daqui a trs anos. Em troca, o governo quer que diminuam seus preos em at 20%. O argumento: no  mais preciso fazer investimentos pesados e as condies econmicas so melhores do que nos anos 90, quando os contratos foram firmados. Entre as concessionrias envolvidas esto a Cesp, a Eletrobras e a Cteep, que respondem por 30% do sistema. As empresas viram a proposta com bons olhos, mas querem uma reduo menor. A segunda medida se baseia na diminuio da carga tributria. O governo federal aceita retirar alguns tributos (como a reserva global de reverso e a conta de desenvolvimento energtico) e tenta convencer os estados a reduzir a alquota do ICMS do setor em troca, por exemplo, do aumento do limite de endividamento. Est ainda em discusso se a reduo deve beneficiar s grandes produtores, o que reduziria o custo Brasil e teria impacto na cadeia produtiva, ou tambm os consumidores, o que renderia dividendos eleitorais para Dilma em 2014.

QUM DILMA OUVIU NO GOVERNO
BETO VASCONCELOS  O secretrio executivo da Casa Civil  filho de um companheiro de guerrilha de Dilma e foi responsvel pela elaborao da parte legal dos projetos de privatizao.
GUIDO MANTEGA - Ministro da Fazenda,  historicamente contrrio as privatizaes, mas auxiliou Dilma nas questes econmicas, principalmente na desonerao da folha de pagamento.
LUCIANO COUTINHO  Presidente do BNDES, que financiar parte do projeto, foi um emissrio do governo para convencer alguns dos principais empresrios do pas a participar das obras.
LUS INCIO ADAMS - Advogado-geral da Unio, foi escalado pela presidente Dilma para encontrar sadas jurdicas que evitem futuras contestaes aos projetos de privatizao.
NELSON BARBOSA - Secretrio executivo do Ministrio da Fazenda,  o responsvel pela parte tcnica do projeto, mostrando de onde pode sair a compensao pelos cortes de impostos.

QUEM DILMA OUVIU NO EMPRESARIADO
ANDR ESTEVES - Em conversas com, Dilma e representantes do governo, o banqueiro admitiu a possibilidade de montar um fundo para investir nos projetos de privatizao.
EIKE BATISTA - Empresrio mais rico do Brasil, o dono da holding EBX j investe em infraestrutura e vai participar dos novos projetos do governo.
JORGE GERDAU - Coordenador da Cmara de Gesto e Planejamento do governo federal, foi o principal conselheiro da presidente na elaborao do programa de privatizaes e isenes.
MARCELO ODEBRECHT - Dono da maior empreiteira do Brasil, aconselhou, a presidente a colocar clusulas que dificultem a participao de empresas estrangeiras que prestam servios ruins no pas.
SRGIO ANDRADE - Presidente da empreiteira Andrade Gutierrez, assegurou ao governo que sua empresa tem dinheiro em caixa e interesse em investir em portos aeroportos e rodovias.

OS SINDICALISTAS FINCAM P. E DILMA SEGUE DIZENDO NO
     Os efeitos da maior greve dos funcionrios pblicos federais em quase uma dcada agravaram-se nesta semana, mas a disposio da presidente Dilma Rousseff permanece a mesma: no ceder. So ao menos 300.000 servidores parados (de um total de 780.000), pelas contas dos sindicatos.  como se quatro em cada dez funcionrios pblicos estivessem de braos cruzados no Brasil. A paralisao comeou nas universidades federais, h mais de trs meses, e se alastrou por quase trinta rgos governamentais.
     H dois movimentos a impulsionar essa onda. O primeiro  a antiga desconexo de sindicatos com a realidade. A queda da taxa dos juros nos ltimos meses reduziu o gasto do governo com a dvida pblica e abriu uma folga no caixa estimada em 1,5% do PIB. Esse dinheiro ser precioso para enfrentar os efeitos da crise econmica internacional. Mas os grevistas tm outros planos. Farejando a verba extra, pretendem engordar seus salrios. Os anseios, pelo menos sob um aspecto, se justificam: o governo Lula tratou o funcionalismo a po de l, com aumentos lineares em 2006 e 2008. O salrio inicial dos auditores da Receita, por exemplo, saltou de 5000 para 13.600 reais entre 2003 e 2010, um aumento 55% acima da inflao. Nas agncias reguladoras, a maior remunerao de tcnicos passou de 8000 para 17.000 reais, um ganho real de 36%. Aos servidores, no agrada o fato de que a festa tenha acabado. O segundo movimento a alimentar a greve foi a falta de coordenao do prprio governo federal, que permitiu que as paralisaes se espalhassem ao encurralar grevistas sem lhes dar a chance de uma sada negociada. S nos ltimos dias Dilma decidiu escalar o secretrio-geral da Presidncia, Gilberto Carvalho, para conversar com os rebelados.
     A presidente resolveu negociar, mas no ceder. No descarta nem mesmo a hiptese de ir  TV mostrar as contas do governo para emparedar os grevistas. O Palcio do Planalto aposta que as greves se enfraquecero a partir do fim do ms, quando a proposta de oramento do ano que vem vai para o Congresso  pondo fim ao prazo legal para aumentos salariais. A proposta segue a mesma: reajuste baseado na inflao, por volta de 5%. O governo admite que algumas carreiras podem ter aumentos maiores, como a dos professores e dos policiais federais. Para alm das questes pontuais, existe um problema de fundo a ser resolvido. A Constituio de 1988 garantiu o direito de greve aos funcionrios pblicos, mas estipulou que uma outra lei deveria regular essas paralisaes, definindo questes como quantos servidores devem continuar a trabalhar para manter os servios e quando haver desconto dos dias parados. Ocorre que essa lei complementar nunca saiu. O senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) apresentou um projeto sobre o tema em 2011, mas o texto est parado.  uma boa hora para desengavet-lo.
CAROLINA RANGEL E OTVIO CARRAL

OS PROBLEMAS QUE OS GREVISTAS J CAUSARAM
As greves mobilizam ao menos 300.000 dos cerca de 780.000 servidores do governo, segundo os sindicatos.
ANVISA  Falta de medicamentos nas farmcias e de kits para exames em hospitais, por causa do atraso na liberao dos produtos em portos e aeroportos.
JUSTIA FEDERAL - Atrasos em processos e julgamentos no Distrito Federal, em So Paulo e em Mato Grosso.
POLCIA FEDERAL - Suspenso da emisso e da renovao de passaportes. Longas filas nos aeroportos em razo da operao-padro da PF.
POLCIA RODOVIRIA FEDERAL - Maior congestionamento nas estradas provocado pelo aumento da fiscalizao.
RECEITA FEDERAL - Produtos importados, como roupas e perfumes, ficaram mais caros ou em falta  o tempo de liberao pela Receita aumentou de um para cinco dias.
MINISTRIO DO TRABALHO - Atraso na emisso da carteira de trabalho e na oficializao de contrataes e demisses.


2. QUEM TEM MEDO DO MERCADO?
Nenhum outro sistema da histria humana foi mais revolucionrio e tirou mais gente da misria do que o capitalismo, mas o bacana  posar de crtico engajado em alternativas que ningum sabe quais, para que ou como implement-las.

     Alguns entrevistados ouvidos por VEJA para a reportagem de capa desta edio disseram que a presidente Dilma Rousseff foi corajosa em recorrer  iniciativa privada em busca de solues tcnicas e recursos para desatar ns que h dcadas impedem a economia brasileira de crescer com todo o seu potencial. Corajosa por qu? Primeiro, porque ela e seu antecessor, mesmo governando com pragmatismo, foram eleitos com a retrica antimercado, e, portanto, no cai politicamente bem recorrer  iniciativa privada em busca de solues para grandes problemas do pas. Segundo, porque o capitalismo nunca venceria uma competio de popularidade em nenhum segmento mais expressivo da populao brasileira e mundial. Sua imagem  especialmente ruim agora que o sistema de livre mercado vem sofrendo inevitveis condenaes por seu papel decisivo na ecloso da crise financeira de 2008 em Wall Street e pelo resultante desarranjo produtivo que desestabilizou as economias reais de virtualmente todos os pases.
     Desde que foram criadas as condies materiais, tecnolgicas, culturais, polticas e legais para sua instalao na Inglaterra, h menos de 200 anos, o capitalismo  criticado. Como a matria e a anti-matria na teoria fsica, o surgimento do primeiro capitalista gerou o primeiro anticapitalista. Tem sido assim. Provavelmente, sempre ser assim. Em todos os tempos da era industrial e ps-industrial, o bacana mesmo foi ser uma pessoa engajada em uma alternativa ao capitalismo. Antes foram o anarquismo e o marxismo e suas representaes reais catastrficas, os governos comunistas. Agora  um certo ambientalismo extremista, que prega a volta da humanidade aos tempos das cavernas, algo to impraticvel quanto empurrar a pasta de dentes de volta para o tubo.
     No  de hoje que a crtica justa e necessria aos excessos do capitalismo  apenas um aperitivo para a negao total e utpica do sistema. Sob esse ponto de vista, tem razo quem acha que a presidente Dilma precisou de coragem para anunciar a adoo de prticas do livre mercado em seu governo, por meio de associao com empresas privadas dentro da regra do jogo de mercado. Hoje em dia, governantes de qualquer pas tm quase de pedir desculpas quando, a exemplo de Dilma, recorrem s virtudes da livre-iniciativa  eficincia, gesto, controle de gastos e compromisso com resultados. Na Inglaterra, bero do capitalismo, tambm  assim. O show de abertura da Olimpada de Londres foi um exemplo recente. O ator Kenneth Branagh interpretou Isambard Kingdom Brunel, engenheiro do sculo XIX, cone do capitalismo clssico: construtor de pontes, estradas de ferro, tneis e navios a vapor. Mostrado de fraque e charuto na mo, como os capitalistas de caricatura, Brunel teve suas realizaes esquecidas no show olmpico em favor de chamins fumarentas e operrios explorados.  preciso ter coragem para celebrar o capitalismo, sistema econmico que est longe de ser perfeito, mas, a exemplo da democracia na poltica,  melhor do que todos os demais. 


2. DUELO ENTRE OS CULPADOS... E CEGOS
Para a defesa, o ex-tesoureiro do PT, o empresrio Marcos Valrio e um morto so responsveis pelo crime  no o mensalo, mas um incuo e j prescrito esquema de caixa dois eleitoral...
... J o ex-ministro Jos Dirceu e o ex-presidente do PT Jos Genoino no viram nada. Provas contra os dois? Segundo a defesa, no existem.
HUGO MARQUES E LAURA DINIZ

     O PT tem por hbito reescrever histrias que manchem a reputao do partido, suavizando-as sempre.  assim com o mensalo, o maior esquema de corrupo poltica do pas, e com Jos Dirceu, o lder petista que pontifica entre os rus sob julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF). At meados da ltima dcada, Dirceu era a personificao do poder. Ministro-chefe da Casa Civil, comandava as negociaes com os partidos aliados no Congresso, escolhia os indicados para os principais cargos da mquina pblica e, de quebra, consolidava-se como uma figura mtica entre os companheiros, depois de ser apontado como responsvel direto pela eleio de Lula  Presidncia. Dirceu era o todo-poderoso da Esplanada, o primeiro-ministro, o nome mais forte do partido para suceder a Lula no Planalto. Era. Na semana passada, o Brasil foi apresentado a um novo Dirceu  justamente a anttese do anterior. Entrou em cena um burocrata, que no participava da rotina petista, nada sabia sobre o pagamento de subornos a parlamentares e que, por isso, seria merecedor da absolvio das acusaes de formao de quadrilha e corrupo ativa.
     Essa desconstruo de imagem foi o primeiro lance apresentado pelos rus do processo a fim de negar a existncia do mensalo, reduzindo-o  mera prtica de caixa dois, um crime j prescrito. Estratgia que tem como linha auxiliar a responsabilizao de apenas trs deles  um dos quais j falecido  pelas irregularidades cometidas. Na segunda semana de julgamento, os advogados do ex-tesoureiro do PT Delbio Soares e do publicitrio Marcos Valrio confirmaram que contraram emprstimos de 32 milhes de reais no Banco Rural para pagamento de petistas e de parlamentares da base aliada, mas negaram que o dinheiro tenha sido repassado para comprar apoio no Congresso. Em tom de confisso, os dois alegaram a prtica de caixa dois para saldar dvidas de campanha. O ex-vice-presidente do Banco Rural Jos Augusto Dumont, j falecido, foi apontado como o nico responsvel pela concesso do crdito a Valrio e Delbio, de forma a eximir todos os diretores do banco que ainda esto vivos. Providencial. A estratgia de reduo de danos ficou clara: admitiu-se o inegvel e negou-se todo o resto. Um integrante de cada ncleo ficou com a culpa do caixa dois  Delbio, no poltico, Valrio, no operacional, e Dumont, no financeiro  e os demais empurraram para eles toda a responsabilidade.
     De acordo com o procurador-geral da Repblica, Roberto Gurgel, Dirceu era o chefe da sofisticada organizao criminosa que subornou parlamentares em troca de apoio ao governo Lula. Jos Genoino, ento presidente do PT, seria a ponte entre Dirceu e membros da quadrilha que repassavam ou embolsavam dinheiro. J Delbio Soares e Marcos Valrio fariam a dinheirama chegar aos bolsos dos corrompidos. Para a defesa, essa acusao no passa de delrio ou farsa. Dirceu teria quarenta anos de vida pblica sem qualquer mcula, Genoino seria um exemplo de luta por seus ideais, Delbio no passaria de um sonhador, enquanto Valrio brilharia como publicitrio premiado. Ou seja: o tribunal no estaria debruado sobre quadrilheiros que desviaram recursos pblicos, mas diante de homens de bem unidos em defesa dos mais republicanos interesses do pas.
     Um dos argumentos mais repetidos pelos advogados foi o de que a acusao se fundamentou especialmente nas provas colhidas pela Polcia Federal e pela CPI dos Correios porque no havia evidencias suficientes produzidas pela Justia Federal para embasar o pedido de condenao. No h prova que incrimine o meu cliente, asseverou Jos Luis de Oliveira Lima, advogado de Dirceu. O ex-ministro tem contra si pelo menos dezessete depoimentos e interrogatrios mostrando que ele tinha poder de comando sobre os mensaleiros e que nenhum acordo era fechado sem o seu aval. Fui eu que organizei e negociei a base aliada entre janeiro de 2003 e janeiro de 2004, admitiu o prprio Dirceu  Justia Federal. Na mesma linha, o advogado de Jos Genoino, Luiz Fernando Pacheco, afirmou que seu cliente cuidava apenas da articulao poltica e que as finanas do PT eram de responsabilidade exclusiva de Delbio Soares. Os depoimentos colhidos no processo fragilizam a tese (veja o quadro).  possvel condenar uma pessoa s com depoimentos. A prova testemunhal pode ter o mesmo valor que a prova documental, diz o ex-ministro da Justia Clio Borja.
     Para alcanar os mandantes, o procurador Roberto Gurgel invocou uma conhecida teoria jurdica nascida no contexto da II Guerra Mundial, na Alemanha. Por essa tese, deve responder por um crime no apenas o sujeito que o executa, mas tambm o que comanda a ao e tem o poder de interromp-la. Assim, foi possvel punir generais nazistas pelo assassinato de judeus, apesar de eles no terem apertado o gatilho nem uma vez sequer. Alm de permitir, por meio da combinao de provas testemunhais e de raciocnio lgico, que a mo da Justia alcance toda a organizao, a teoria ajuda o juiz a identificar o autor intelectual de um crime e a dosar a punio na medida de sua culpa. Os mandantes costumam ter penas mais altas que os executores. 

O autor Intelectual quase sempre no fala ao telefone, no envia mensagens eletrnicas, no assina documentos, no movimenta dinheiro por suas contas, agindo por intermdio, por exemplo, dos chamados laranjas, e na maioria dos casos no se relaciona diretamente com os agentes que ocupam os nveis secundrios da quadrilha. Assim, nesses casos, a prova da autoria do crime no  extrada de documentos ou de percias, mas essencialmente da prova testemunhal  que tem,  claro, o mesmo valor probante das demais provas. - ROBERTO GURGEL, PROCURADOR-GERAL DA REPBLICA

As negociaes polticas do PP com o PT ocorreram principalmente entre o depoente e o deputado Pedro Henry pelo PP e Jos Genono, Jos Dirceu, Silvio Pereira e Marcelo Sereno pelo PT; as reunies ocorriam no Palcio do Planalto. - EX-DEPUTADO PEDRO CORRA (PP)

Jos Genoino no possua autonomia para bater o martelo nos acordos, que deveriam ser ratificados na Casa Civil pelo ministro Jos Dirceu. (...) Eu j disse naquela poca ao Genoino: Genoino, isso vai complicar. Vocs tm um alarde de proviso de caixa por dentro. Isso (dinheiro) est vindo por fora. - EX-DEPUTADO ROBERTO JEFFERSON

Que sabe da existncia de trs encontros de dirigentes do Banco Rural com o ex-ministro Jos Dirceu (...); que do segundo encontro participaram, juntamente com Jos Augusto Dumont, Marcos Valrio e o ex-ministro Jos Dirceu. - KTIA RABELLO, EX-PRESIDENTE DO BANCO RURAL

Depois de todas as conversas sempre havia uma ligao ou do Delbio ou do Genoino para o deputado Jos Dirceu. - EMERSON PALMIERI, EX-TESOUREIRO DO PTB

O sr. Delbio esclareceu que o ento ministro Jos Dirceu e o secretrio Silvio Pereira eram sabedores dessa operao de emprstimo para o partido. - MARCOS VALRIO, EMPRESRIO

Jos Dirceu sabia dos emprstimos. (...) Ele (Valrio) falou que houve uma reunio da direo do Banco Rural, em Belo Horizonte, no Hotel Ouro Minas, com o ento ministro Jos Dirceu, para resolver sobre o pagamento desses financiamentos feitos no Banco Rural. - RENILDA SANTIAGO, ESPOSA DE MARCOS VALRIO

Fui eu que organizei e negociei a base aliada entre janeiro de 2003 e janeiro de 2004, eu era o ministro responsvel pela articulao poltica. - EX-MINISTRO JOS DIRCEU

O QUE J ACONTECEU
Agosto 2 - quinta-feira
Agosto 3 - sexta-feira
O relator Joaquim Barbosa apresentou um resumo do caso. O procurador-geral da Repblica, Roberto Gurgel, fez a acusao. Pediu a priso de 36 dos 38 rus.

COMO FOI A SEMANA
Dia 10 - sexta-feira
Os advogados de 25 rus fizeram, durante uma hora cada um, a defesa de seus clientes. Falaram os defensores de alguns dos principais personagens do escndalo, como Jos Dirceu, Jos Genoino, Marcos Valrio e Delbio Soares. Todos alegaram inocncia, embora alguns tenham admitido crimes eleitorais  que no levam  priso

O QUE VAI ACONTECER
Defesa dos rus
Dia 13 segunda-feira  Bispo Rodrigues; Roberto Jefferson; Emerson Palmieri; Romeu Queiroz; Jos Borba.
Dia 14 tera-feira  Paulo Rocha; Anita Leocdia; Professor Luizinho; Joo Magno; Anderson Adauto.
Dia 15 quarta-feira - Jos Luiz Alves; Duda Mendona; Zilmar Fernandes Silveira (*At aqui, a cronograma  o oficial do STF, passvel de mudanas em razo de detalhes tcnicos. A partir do dia 15, o calendrio se baseia em projees.) 

LEITURA DO VOTO DO RELATOR
A partir deste dia, as sesses ocorrero s segundas, quartas e quintas-feiras. Dia 16 quinta-feira, dia 20 segunda-feira, dia 22 quarta-feira e 23 quinta-feira. Joaquim Barbosa apresenta seu voto. 

LEITURA DO VOTO DO REVISOR
Dia 27 segunda-feira, dia 29 quarta-feira e dia 30 quinta-feira. O revisor do caso, ministro Ricardo Lewandowski, comea a leitura de seu voto. 

SETEMBRO
Do dia 3 at o trmino do julgamento, estimado para o fim do ms
Os demais ministros apresentaro seu voto nesta ordem, dos mais recentes aos mais antigos no cargo: Rosa Weber, Luiz Fux, Dias Toifoli, Crmen Lcia, Cezar Peluso, Gilmar Mendes, Marco Aurlio e Celso de Mello. O presidente do STF Carlos Ayres Britto, vota por ltimo.


4. CIFRAS QUE BRILHAM
Os criminalistas do mensalo no tm do que reclamar. Seus honorrios so estimados em 61 milhes de reais.
OTVIO CABRAL E CAROLINA MELO

     Os advogados dos rus do mensalo so frequentemente loquazes. Menos no que se refere aos honorrios que esto recebendo  e a quem est, de fato, pagando-lhes. Embora rejeitem revelar os valores que embolsam, no tm o mesmo comedimento em falar sobre os vencimentos dos colegas. VEJA ouviu vrios desses criminalistas para levantar uma estimativa dos proventos envolvidos no caso. Num clculo conservador, os mensaleiros esto pagando cerca de 61 milhes de reais para no ser condenados.
     No mercado dos maiores criminalistas do Brasil,  consenso apontar Mrcio Thomaz Bastos como o mais bem remunerado. Estaria recebendo 20 milhes de reais do Banco Rural para defender Jos Roberto Salgado, ex-diretor da instituio  includa a uma taxa de xito. Thomaz Bastos cobraria at mais se estivesse com Salgado desde o incio do caso. Como entrou tarde, aceitou reduzir seus honorrios.  hoje, a lguas de distncia, o criminalista mais caro do Brasil.
     Quase num outro extremo do palco, o julgamento permitiu a Jos Luis de Oliveira Lima, 46 anos, subir alguns degraus e postar-se no time dos criminalistas mais disputados do pas. Teve,  verdade, uma alavanca poderosa. Seu cliente, Jos Dirceu,  um dos smbolos do mensalo. Terceira opo de Dirceu e praticamente desconhecido quando foi contratado, em 2005, Oliveira Lima recebeu relativamente pouco pela misso  cerca de 1 milho de reais. Alguns colegas chegam a dizer que Juca, como  conhecido,  quem deveria ter pago a Dirceu por tir-lo do semianonimato.
     Apesar de a maior parte dos grandes criminalistas brasileiros participar do caso, no se viu at sexta-feira passada nenhuma defesa arrebatadora  mesmo porque pouco se diferenciaram dos memoriais de defesa entregues aos ministros. De modo geral, foram corretos, mas sem brilho especial nem retrica impactante. Alguns, no entanto, como Luiz Fernando Pacheco, advogado do ex-presidente do PT Jos Genoino, tiveram momentos constrangedores.
     Os advogados do mensalo  ao todo so cerca de 150 envolvidos, incluindo nessa conta os assistentes  formaram nestas duas ltimas semanas uma turma unida. Quase todos saem juntos para beber em Braslia, discutem h tempos estratgias comuns. Talvez nem pudesse ser diferente. Eles  e os seus argumentos  no podiam brigar entre si na defesa de seus clientes. Ainda que tal articulao deponha contra a prpria defesa em pelo menos um ponto: oficialmente, negam que tenha havido formao de quadrilha no mensalo, mas as reunies em conjunto, comandadas por Thomaz Bastos, acabam sendo uma espcie de negao dos seus argumentos.
     As bancas que tratam de casos penais costumam ser enxutas. Poucas tm mais do que dez advogados. Rarssimas chegam a vinte. So escritrios-butique, fortemente centrados na figura do scio principal. O escritrio de Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, advogado de boa parte dos encrencados de Braslia, tem somente quatro.  uma caracterstica do mundo dos criminalistas. Em outros ramos do direito, acontece o oposto: estruturas gigantescas, com centenas de advogados. So escritrios focados nas assessorias a grandes negcios, fuses, aquisies e contenciosos (veja a reportagem na pg. 78). De qualquer forma, o criminalista teve de atualizar-se e passou a entender as questes societrias, tributrias e bancrias  como no caso do mensalo.

A RETRICA NO  BL-BL-BL
     Na era da internet, com seus rsrsrs e as longas mensagens de 140 caracteres do Twitter, que lugar haveria para a retrica, a inveno dos gregos clssicos para permitir que nas democracias o bom cidado pudesse defender seus pontos de vista falando bem? Na semana passada, o julgamento do mensalo no STF ps em evidncia os advogados dos rus. Eles foram l exercitar sua retrica, uma vez que as peas de defesa j haviam sido escritas e enviadas aos ministros do tribunal. Os defensores, com raras excees, saram-se muito mal no quesito da retrica  que no  bl-bl-bl.
     Quando assumiu o posto de presidente da Suprema Corte dos Estados Unidos, Earl Warren perguntou a um colega mais antigo em quem confiava plenamente o que ele deveria ler para conseguir escrever suas sentenas no alto nvel que as circunstncias exigiam. O colega de Warren, Hugo Black, respondeu Basta ler Retrica, de Aristteles.
     Sbio conselho. Com a democracia, os gregos criaram esse mecanismo de sustentao oral baseado na lgica e na honestidade de pensamento a que chamaram de retrica. Os cidados eram frequentemente obrigados a defender em pblico no apenas ideias, mas sua propriedade e at a prpria liberdade. Aristteles ensinou que persuadir uma audincia nada tem a ver com eloquncia. Isso  sofisma. E o que separa um cidado grego dotado da retrica de um mero sofista? A retrica vencedora no depende do dom da oratria, mas do valor moral do orador.

MRCIO THOMAZ BASTOS  20 milhes de reais (incluindo taxa de sucesso). Ru: Jos Roberto Salgado, ex-diretor do Banco Rural.
JOS CARLOS DIAS  8 milhes de reais. Ru: Ktia Rabello, ex-presidente do Banco Rural
ARNALDO MALHEIROS  5 milhes de reais. Delbio Soares, ex-tesoureiro do PT
MARCELO LEONARDO  5 milhes de reais. Ru Marcos Valrio, operador do mensalo.
ANTONIO CARLOS DE ALMEIDA CASTRO (KAKAY)  5 milhes de reais (incluindo taxa de sucesso). Rus: Duda Mendona e Zilmar Fernandes, marqueteiros da campanha de Lula em 2002.
ANTONIO MARIZ  3 milhes de reais. Ru: Ayanna Tenrio, ex-vice presidente do Banco Rural.
ALBERTO TORON  2 milhes de reais. Ru: Joo paulo Cunha, deputado federal.
JOS LUIS DE OLIVEIRA LIMA  1 milho de reais. Ru: Jos Dirceu, ex-chefe da Casa Civil.
OUTROS (Advogados dos outros 29 rus)  400.000 reais (valor estimado de quanto cada um recebeu em mdia).


5. BECA SEM CRISE
Bem formada, empreendedora e workaholic, a gerao de advogados da era globalizada esta por trs de todos os grandes negcios no Brasil.
MARCELO SAKATE, FERNANDA ALLEGRETTI E GABRIELE JIMENEZ

     As carreiras dos seis advogados que ilustram esta reportagem, embora excepcionais e exemplares, esto longe de ser excees. A atuao em casos penais, como a dos defensores dos rus do mensalo, representa a face mais tradicional do trabalho de um advogado. Nas economias modernas e globalizadas, entretanto, o lado mais efervescente do direito est nas causas que envolvem as grandes multinacionais. Atuar nesse mercado exige no apenas o diploma em uma faculdade de primeira linha e profundo conhecimento da legislao brasileira, mas tambm experincia internacional, MBAs de ponta no exterior e fluncia em ingls e pelo menos mais uma lngua. Sem falar, obviamente, na competncia individual.
     No Brasil, esse processo iniciou-se com a abertura da economia nos anos 90, deu mais um passo com as privatizaes da era FHC e explodiu de vez com as centenas de operaes de fuses e aquisies a partir da dcada passada. Em 2011, esses negcios bateram os 140 bilhes de reais  e nenhum deles foi fechado sem um batalho de advogados. Outra ponta dessa agitao pode ser medida pelo tamanho dos grandes escritrios. Se no incio dos anos 80 o Pinheiro Neto, ento o maior do pas, contava com cerca de trinta advogados, no fim da dcada seguinte, eram 150. Hoje, o nmero 1  o Siqueira Castro, que conta com mais de 500 advogados em seus quadros.
     Lidar com transaes internacionais envolvendo o interesse de, no raro, milhares de investidores exige o trabalho de uma grande quantidade de advogados, cada um deles especializado em uma nuance particular do direito comercial. Os grandes escritrios de advocacia so partes indissociveis do capitalismo moderno com todas as suas virtudes e defeitos. Quando uma empresa decide abrir o seu capital e vender aes para ser negociadas na bolsa, por exemplo, precisar em primeiro lugar da assessoria financeira de um banco de investimentos. Mas quem cuidar de todos os aspectos legais e redigir o contrato da operao ser um time de advogados. Nas operaes de fuses de empresas, tambm,  essencial o aconselhamento jurdico. Os candidatos a uma vaga nos quadros dos escritrios mais concorridos passam por mais de uma entrevista e enfrentam testes de ingls e de conhecimentos especficos. O processo de seleo no difere em nada daqueles feitos pelas grandes corporaes brasileiras e internacionais.
     Num mercado assim, no so incomuns rachas de escritrios ou a contratao de estrelas da profisso para reforar o time da banca concorrente. Separaes amigveis h aos montes,  um caminho natural. Assim como os divrcios rumorosos. Em 2001, o escritrio Souza, Cescon, Barrieu & Flesch, de So Paulo, foi fundado com nove scios. Quatro deles eram do Machado, Meyer, Sendacz e Opice. Alm dos scios, 27 profissionais participaram da troca de banca, entre eles vinte advogados. Os scios levaram consigo vinte clientes do Machado, Meyer. Quando anunciamos a mudana, alguns clientes se mostraram fiis a ns, diz Luis Souza, scio do escritrio. O caso ficou conhecido no mercado porque o Souza, Cescon agiu com rapidez supersnica na criao do escritrio. Em pouco tempo, tudo j funcionava com estrutura fixa e clientes, enquanto o Machado, Meyer teve de se adaptar  perda de profissionais em massa. Hoje, o Souza, Cescon ocupa a oitava posio entre os maiores escritrios do pas e tem 500 clientes fixos (veja o quadro na pg. 80). Mais recentemente, h dois anos, Carlos Mello, um dos maiores especialistas em mercado de capital no pas, saiu da Mattos Filho e foi para o Lefosse/Linklaters. Correu no meio que Mello mudou de casa a bordo de um acordo para ganhar 1,8 milho de reais por ano, durante trs anos. Ainda levou quinze advogados da Mattos Filho com ele.
     A especializao reflete a tambm crescente complexidade na economia. Afirma Sergio Bermudes, decano da advocacia empresarial brasileira e fundador do escritrio que leva o seu nome, um dos mais respeitados do pas: Cada dia se sabe mais a respeito de menos. O velho direito comercial, que abrangia uma grande quantidade de segmentos, foi se fracionando. Atualmente, fala-se em sociedades annimas, que constituem o direito societrio, uma parte do direito comercial. H o direito martimo, o aeronutico. No campo do direito tributrio, em outro exemplo, existem advogados especializados apenas em imposto de renda. Os advogados so incontornveis tambm para as empresas vencerem os meandros e labirintos da legislao brasileira, seja nos fruns trabalhistas, tributrios ou de defesa do consumidor.
     Como profisso, a carreira aparece entre as mais promissoras para aqueles com ttulos de ps-graduao. Segundo estudo do economista Marcelo Neri, da Fundao Getulio Vargas, 88% dos advogados com mestrado ou doutorado esto empregados. O salrio mdio  de 7500 reais. Para quem ingressa nos grandes escritrios paulistanos ou cariocas, os nmeros so ainda mais favorveis. Segundo a consultoria Schumann, um advogado da categoria jnior (recm-formado) tem salrio inicial de 4800 reais. Com cinco anos no escritrio, o rendimento mensal salta para 10.000 reais. O advogado snior (com oito anos de experincia) ganha em mdia 18.000 reais. Esses valores, mais uma vez, so mdias.
     De acordo com o scio de um grande escritrio paulista,  comum jovens com menos de 30 anos ganharem 40.000 reais ao ms, incluindo bnus e comisses por desempenho. Quem tem a posio de scio de um grande escritrio cobra em mdia 1200 reais por hora trabalhada para participar de reunies, elaborar contratos, prestar consultorias. Para assessorar juridicamente um IPO (abertura de capital), por exemplo, cobram-se entre 500.000 e 1,2 milho de reais. Fuses ou aquisies entre grandes empresas engordam o cofre dos escritrios em algo como 1 milho de reais, no mnimo.
     A cada ano, mais de 800.000 alunos so graduados nas faculdades e universidades brasileiras. O direito  a segunda profisso mais procurada, perdendo apenas para administrao  responde por um em cada dez dos formados. A maior parte dos bacharis, no entanto, no passa no exame da OAB e nunca advogar. Na ltima edio do teste da OAB, havia 102.000 inscritos, e a taxa de aprovao foi de 25%. Muitos bacharis carregam o diploma, mas optam por exercer outras funes em vez de advogar. Ainda assim, existem mais de 700.000 advogados em atividade hoje no pas, de acordo com a OAB, o que representa um crescimento de 70% nos ltimos oito anos. Comparaes internacionais revelam que o Brasil perde apenas para os EUA no que diz respeito ao nmero de advogados por habitante.
     Atuando num mercado emergente por excelncia, os escritrios brasileiros esto em p de guerra contra a invaso estrangeira. Pela legislao,  proibido que os estrangeiros advoguem nos tribunais daqui (assim como nos EUA no  permitido que advogados formados em faculdades de fora l trabalhem). Aqui, eles podem apenas prestar consultoria, associando-se a escritrios nacionais. Mas nos ltimos anos foi criada uma srie de escritrios-laranja. Esta  uma reserva de mercado que est em xeque, e h grande presso para derrub-la  at porque, acredita boa parte dos advogados, a concorrncia dos escritrios recm-chegados poderia elevar a remunerao por aqui.
     Caia ou no a reserva, o fato  que o mercado no d sinais de que v esfriar. Quanto maior a renda das pessoas, maior a demanda pelo Judicirio. Justia, neste sentido,  um bem de consumo, afirma Joaquim Falco, diretor da Faculdade de Direito da FGV-RJ e um dos conselheiros da principal cmara de arbitragem do mundo, a ICC.

ANA PAULA MARTINEZ
32 anos, ex-secretria adjunta de direito econmico e atual scia do Levy & Salomo, atuou no contencioso societrio entre a CSN e a Usiminas.
Sempre gostei de economia e advocacia. Mas foi por acaso que meu primeiro estgio em um escritrio tenha sido em direito da concorrncia. Logo percebi que era uma rea promissora. O Brasil voltava a ganhar projeo internacional, a economia crescia e atraa mais investimentos. O trabalho do advogado se tornaria mais sofisticado e isso exigiria uma formao multidisciplinar. Depois que me formei fiz um mestrado na USP e outro em Harvard e trabalhei em um escritrio americano. Conheci um sistema jurdico diferente do nosso, e isso tornou minha viso mais abrangente.

FERNANDO ALVES MEIRA
44 anos, scio do Pinheiro Neto Advogados, atuou na operao que originou a Braskem
Trabalho no Pinheiro Neto desde o 3 ano da faculdade, quando era estagirio. Por intermdio do escritrio, trabalhei dois anos em uma banca tradicional de Nova York, onde atuei em transaes importantes envolvendo empresas brasileiras, como a abertura de capital da NET. Quando voltei ao Brasil, recebi o convite para me tornar scio do Pinheiro Neto. J tive propostas para sair daqui, mas no me interessei, porque me identifico com o escritrio. Considero-me casado com meus clientes, pois atendo telefonemas deles at nos fins de semana. J deixei de entrar numa sala de cinema porque um cliente me ligou na hora do filme, e a no tem jeito  mesmo com minha mulher ficando brava.

BRBARA ROSENBERG
37 anos, scia do Barbosa, Mssnich & Arago Advogados, atuou nas fuses do Ita com o Unibanco, da Sadia com a Perdigo e da LAN com a TAM.
Como em qualquer outra profisso,  preciso estudar muito para se destacar. Eu me formei pela USP, fiz mestrado na universidade da Califrnia e doutorado na USP. O que me atraiu para a carreira foi a possibilidade de ali-la  economia, outro assunto de que gosto. Tralho em mdia dez horas por dia, mas estou sempre disponvel. Quando o cliente tem um problema ele quer encontrar o advogado imediatamente. No me desligo dos negcios nem quando saio de frias. Em geral, tiro duas semanas por ano. Na minha licena-maternidade, consegui me organizar para trabalhar em casa e reduzi o nmero de viagens, mas no me afastei completamente.

RAPHAEL MIRANDA 
37 anos, scio do escritrio que leva o seu nome, tem como clientes Bradesco, OdontoPrev, BMG e SulAmrica
Entrei na carreira sem querer quando meu pai conseguiu um estgio para mim no escritrio Sergio Bermudes. Com o tempo virei scio. Aos 25 anos, tornei-me responsvel pela conta do Bradesco Seguros, um dos clientes mais importantes que tnhamos. Aos poucos criei uma boa rede de relacionamentos. Depois de quase vinte anos l, percebi que j estava maduro para abrir meu prprio escritrio. Estou satisfeito: em apenas oito meses, atingimos a meta de faturamento que planejvamos conseguir em trs anos. J fui compulsivo a ponto de trabalhar at de madrugada. Hoje, no entanto, tento guardar um espao para a famlia. No tem graa ser um advogado nota 10 e um marido nota zero.

LUZ GUSTAVO BICHARA
37 anos, scio do Bichara, Barata & Costa Advogados, especialista em contencioso tributrio, tem como clientes CSN, Oi, Votorantim, AmBev, Globo, Odebrecht, Telefonica, HSBC e MPX
O que mais mudou na minha vida, depois que virei advogado, foi a sade. Estou acima do peso e meu colesterol est alto. O grau de stress  muito grande, mas vivo bem assim e gosto muito do que fao. Trabalho cerca de catorze horas por dia, incluindo fins de semana. Sou o tipo de chefe que manda e-mail no domingo e fica chateado se os subordinados no respondem. Quando montei meu escritrio, ramos seis advogados. Hoje, somos 170. No fui um aluno exemplar, mas sempre gostei de ler muito e sou curioso. Tenho de saber de tudo um pouco e estar sempre atualizado. Para isso,  preciso capacidade e dedicao.

FERNANDO VILLELA
31 anos, advogado snior do Siqueira Castro, formulou a proposta da nova legislao para a extrao de petrleo e gs do Congo, por encomenda do governo local
Quando eu tinha 13 anos, j gostava de ajudar minha me, que tambm  advogada, a fazer pesquisas para os processos em que ela atuava. Entrei na faculdade e logo consegui um estgio aqui. Trs anos depois, ganhei da firma um mestrado nos EUA. Fiquei dois anos em Nova York, onde trabalhei em dois grandes escritrios. Aprendi muito sobre as leis que regem os contratos por l. Isso  um grande diferencial na hora de explicar um projeto aos meus clientes estrangeiros. Tive uma ascenso rpida. Hoje, sou advogado snior e represento o escritrio em diversos eventos internacionais  falo espanhol, ingls e italiano. Minha meta  tornar-me scio.

OS MAIORES DO BRASIL
Os grandes escritrios empregam centenas de advogados e faturam, em mdia, acima de 100 milhes de reais ao ano
Fontes: Latin Lawyer e consultoria Schumann

ESCRITRIO: Siqueira Castro
SEDE: Rio de Janeiro
ADVOGADOS: 554

ESCRITRIO: Pinheiro Neto
SEDE: So Paulo
ADVOGADOS: 362

ESCRITRIO: Machado, Meyer, Sendacz e Opice
SEDE: So Paulo
ADVOGADOS: 360

ESCRITRIO: Tozzini Freire
SEDE: So Paulo
ADVOGADOS: 330

ESCRITRIO: Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey Jr. e Quiroga
SEDE: So Paulo
ADVOGADOS: 293

ESCRITRIO: Demarest e Almeida
SEDE: So Paulo
ADVOGADOS: 260

ESCRITRIO: Veirano
SEDE: Rio de Janeiro
ADVOGADOS: 242

ESCRITRIO: Souza, Cescon, Barrieu & Flesch
SEDE: So Paulo
ADVOGADOS: 216

ESCRITRIO: barbosa, Mssnich & Arago
SEDE: Rio de Janeiro
ADVOGADOS: 214

ESCRITRIO: Azevedo Sette
SEDE: Rio de Janeiro
ADVOGADOS: 211

COM REPORTAGEM DE ANA LUIZA DALTRO

